por Fernando Beserra
Ainda hoje encontramos uma nefasta percepção do Estado, e de diversas esferas da sociedade, sobre os usos de enteógenos, sejam estes individualizados ou mesmo coletivos e ritualizados. Mesmo no Brasil, onde algumas religiões usam a ayahuasca como sacramento, resiste um preconceito inaudito, pois estas religiões, como se sabe, são extremamente ordeiras e normalmente adequadas à moral cristã ou, de modo geral, a moral
aceita pela sociedade circundante. A situação se torna mais absurda se pensarmos que as religiões ayahuasqueiras são religiões brasileiras por excelência e patrimônio de nossa cultura.
Ora, este preconceito em relação aos estados alternativos de consciência não é novidade na constituição da subjetividade ocidental. Quando os europeus chegaram as Américas, já em meados do século XVI o uso local de enteógenos por povos tradicionais da região era conhecido. Por exemplo, sementes de glória da manhã, teonanácatl e peiote nos arredores do atual México, ayahuasca no norte brasileiro, achuma próximo das cordilheiras, etc... Além do quase onipresente tabaco.